O QUE SÃO ‘PSICOSES’ PELA VISÃO SISTÊMICA?


Em primeiro lugar, as psicoses não são o sofrimento de um indivíduo. Elas são o sofrimento de um sistema familiar. Por trás da psicose existe um extenso cenário de sofrimento e dor que grita por socorro. Por trás de uma esquizofrenia, normalmente está uma morte encoberta ‘em segredo’. Quando a pessoa que sofre e a família como um todo fica desnorteada é porque pé preciso incluir, ao mesmo tempo, tanto a vítima quanto o agressor em seu próprio sistema.

A solução é que ambos, vítima e agressor, recebam novamente um lugar na família. Isso acontece na terapia pelo método da Abordagem Sistêmica das Memórias Inconscientes (ASMI), quando a memória é descortinada e o agressor e a vítima são colocados um em frente ao outro, onde é feito o ritual de respeito mútuo, e tomam o outro em seu próprio sistema. Esse é o movimento da alma que vai muito além do nosso entendimento, e ele nos conduz a outra dimensão, na qual quando se olha para o outro, todos têm o mesmo lugar e a mesma importância.

Isso é especialmente difícil para nós que pensamos que deveríamos seguir a nossa consciência. Entretanto, se observarmos a vida do ser humano, de que pessoas partem o grande desafio? Quais são os que levam adiante o todo, de modo decisivo? São os bons? São os maus? São os mansos ou são os violentos? É o claro ou o escuro? O escuro é o que está mais próximo da origem.

Essa é a experiência de aprendizado à qual somos levados quando estamos diante de psicoses.

Fenômeno e diagnóstico

No contexto profissional da Psicanálise Sistêmica, as “psicoses” (literalmente traduzida por ‘doenças da psique’) são diagnosticadas a partir dos seguintes sintomas: percepções de vultos, audição de vozes, pensamentos delirantes, nível de agitação elevado ou de apatia total, perda da noção da realidade, fracassos constantes nos variados níveis da vida.

Os diagnósticos psicanalíticos relacionados com sintomas psicóticos são:

– Esquizofrenia (paranoica desorganizada, catatônica, simples);

– Perturbações delirantes (contínuas, agudas, passageiras);

– Perturbações esquizo-afetivas (maníaco-depressivas);

– Incapacidade para perceber e sair dos fracassos (apático conformismo),

– Necessidade compulsiva de ingestão de psicoativos (drogas e álcool).

Caso Clínico

Registrando as várias formas de manifestação numa única categoria de diagnóstico, falamos também de “psicoses da área comportamental”. Vou citar um caso clinico: uma paciente com 36 anos apresentava vários sintomas de um delírio de perseguição. Disse-me ela: “Há um ano que vivo com ataques de Síndrome de Pânico. Começaram quando alguém me falou das suas alucinações após o uso de cocaína. Ele via, de vez em quando, mulheres com a cabeça pendurada no pescoço apenas pela pele. Fiquei apavorada com essa história. Vi a loucura nos seus olhos e não consegui libertar-me mais dessas imagens. Com o tempo, eu própria comecei a ver essas cenas. Até então usava apenas maconha, mas comecei usar outras drogas mais pesadas e a cada dia aumentava as percepções delirantes. Estava em uma festa, de um momento para o outro senti que estava sendo controlada por alguns dos convidados e senti que a minha irmã e o meu irmão também faziam parte de uma conspiração contra mim. Quando andava pelas ruas da cidade, via as pessoas andando de um lado para o outro e pensava que eram sempre as mesmas e que queriam revelar algo importante através das suas roupas sempre diferentes. Tinha visão de espíritos, eles conversavam comigo. Dentro de casa sentia-me súbita e magicamente atraída por uma máquina de costura, que a muito estava encostada, parecia que havia algo dentro da máquina, pois tinha muita importância para mim sem que eu pudesse dizer o porquê.” Seu caso era grave, com o diagnóstico de esquizofrenia paranoica. Também as formas muito graves das chamadas depressões pós-traumáticas ou pós-partos, de medo e de pânico, de ideias obsessivas fortes, de anorexia nervosa e formas extremas de dissociação da personalidade (personalidade múltipla), possuem uma qualidade psicótica na medida em que os sentimentos e as ações dessas pessoas não estão adequadamente relacionados com a sua realidade exterior. Se, por exemplo, uma mulher com anorexia se acha gorda, apesar de o seu peso corporal situar-se nos 40 kg, podemos considerar essa sua avaliação como uma percepção delirante e desfocada dela própria. Para a Ciência Médica, as psicoses ainda são um enigma longe de ser resolvido. Mas, graças a Deus, deixaram de representar um enigma para a Psicanálise Sistêmica. Para nós do Instituto de Pesquisa e Tratamentos Humanísticos (IPTH) foi uma grande descoberta entender as três vertentes de fatores desencadeantes das psicoses, pois se abriu uma larga avenida para o tratamento:

1° Vertente: O desencadeamento de uma memória genética de repetição dos antepassados, por exemplo, assassinatos ou suicídios nas gerações passadas. Estas memórias alteram a glândula pituitária das emoções, afetando o bom funcionamento da glândula hipófise, causando uma disfunção da produção de neurotransmissores e alterando o código binário do inconsciente.

2° Vertente: Disfunção do corpo energético com o desalinhamento do eixo de percepção cerebral, criando uma ruptura na tela de proteção do corpo vital, permitindo a infestação de ‘bactérias astralinas’. Mais tarde, pelo desequilíbrio espiritual a nível de obsessão, estas bactérias transformam-se em Rickettsia ou príons, instalando-se no cerebelo e trazendo grandes consequências a seus portadores.

3° Vertente: Tentativa de aborto ou rejeição durante a gestação. Normalmente a criança nasce com o cordão umbilical enrolado no pescoço.Segundo nossas pesquisas, estes três fatores são as estruturas das psicoses, e quando a crise existencial se instala, o próximo passo é tentar preencher o vazio da alma com drogas.

A explicação da Medicina Psiquiátrica pressupõe perturbações do metabolismo como causa única das psicoses. Estas perturbações do metabolismo, derivadas de alterações genéticas, levariam a uma maior vulnerabilidade e, assim, a uma maior sensibilidade

dos pacientes em relação ao stress. Esta teoria, no entanto, não é correta. Por um lado, não é claro se essas alterações no metabolismo dos neurotransmissores – alterações que não se encontram em todos os pacientes – são a origem ou a consequência de uma psicose. Por outro lado, esses genes não estão devidamente sinalizados, nem a tipificação das suas anomalias. Finalmente, toda a argumentação sobre o stress e a vulnerabilidade é um raciocínio circular: quem se tornou psicótico seria anteriormente vulnerável, e quem não se torna psicótico, aguentaria melhor o stress.

A teoria psiquiátrica padrão para a explicação das psicoses é um bom exemplo de uma ideologia fechada em si própria. Serve, isso sim, para manter o status do tratamento essencialmente médico dos doentes psicóticos. Em termos científicos, existe um impasse. Na ausência de uma teoria sensata acerca das psicoses, o tratamento psiquiátrico usual não pode passar de uma tentativa de reprimir os sintomas através de medicamentos, os chamados psicofármacos. Esse tratamento baseia-se no princípio de tentativa e erro, bem como, na ideia de compensar, ao menos parcialmente, os chamados efeitos secundários dos medicamentos, dados no início do tratamento.

As psicoses são, na minha terminologia, expressões de formas graves de uma perturbação psíquica e confusão de memórias atuais e memórias vivenciadas pelos ancestrais. Apresentei por várias vezes os pormenores das experiências dos tratamentos realizados com sucesso pela Psicanálise Sistêmica e seus agregados, o conceito básico de uma Psicanálise Sistêmica. Temos centenas de casos de psicóticos que foram curados sem nunca estarem em minha clínica (foram tratados através de suas mães). As experiências mostram que, ao contrário da doutrina psiquiátrica, os sintomas psicóticos também têm uma interpretação a nível noológico e psicológico. Ou seja, são sintomas que se referem a um contexto psíquico real do passado vivenciado pelos seus ancestrais. Mas esse contexto é ignorado pela psiquiatria e tem grandes implicações no presente.

Nesta medida, as psicoses são formas ajustadas de expressão psíquica que nos remetem para a questão: “em que contexto situacional um estado psicológico alterado surge? Como a única reação possível da psique humana a uma experiência de vida?”. A visão sistêmica me conduz a esta perspectiva de interpretar sintomas de doenças como reações ajustadas a situações de exigência excessiva, na história de vida da pessoa: estou convencido que se pode encontrar um sentido para cada sintoma e cada doença! Este sentido, no entanto, não é válido para o geral, mas nasce no contexto da situação do paciente e das suas relações no sistema familiar. Podemos considerar os sintomas como padrões precoces e marcantes de reação a situações difíceis, e temos apenas que perceber em que situação o sintoma estava ou teria sido apropriado. Esta situação pode pertencer ao próprio passado biográfico do paciente ou ao passado de um elemento do seu sistema familiar, sempre na forma de memória, sendo que por algum motivo houve acionamento da memória como um gatilho, que por sua vez aciona as perturbações.

Segundo a minha experiência com centenas de pacientes tratados pelas terapias sistêmicas, também os sintomas de doenças psíquicas graves (medos, depressões, obsessões, dependências químicas, etc.) incluindo as psicoses, representam uma “tentativa de solução” de um conflito psíquico. Por um lado, o método ASMI protege a pessoa de mais dores psíquicas e sentimentos insuportáveis, por outro, bloqueia ao mesmo tempo o crescimento do desequilíbrio psíquico, congelam o desenvolvimento num estado momentâneo e fixam as pessoas em determinados comportamentos, anulando as reações a estados de experiência como ameaçadores. Nesta perspectiva, a ajuda é imediata, possibilitando a compreensão das funções específicas de proteção desses sintomas.

Precisamos saber o que há por trás da psicose, ela nunca está sozinha. Precisamos saber o que há no sistema que ela quer curar. Os sintomas são apenas a ponta do iceberg, e para mim os sintomas pouco significam. Os vejo como uma grande ramificação sustentada por raízes profundas e ocultas que sustentam uma grande problemática. Se quisermos eliminar as ramificações precisamos cortar as raízes, sendo que, normalmente, as raízes se encontram no inconsciente das pessoas afetadas.

No tratamento sistêmico os sintomas serão analisados, reconhecidos e valorizados. Mas é só através de um processo terapêutico sistêmico que lide com os sintomas resultantes das ameaças vividas que se pode criar uma alternativa ao padrão existente. Assim, os sintomas podem “iniciar a sua retirada”, deixando espaço para que surja uma forma madura de gerir o conflito psíquico e a pessoa encontre a cura definitiva.

Trauma psíquico

A palavra trauma significa ferida. Neste sentido, fala-se na medicina, por exemplo, de um traumatismo craniano. Transferindo este conceito ao nível psíquico, podemos falar também de uma ferida psíquica nos processos psíquicos, tais como: percepção, sensação, pensamento, memória, imaginação, etc., que já não funcionam normal e saudavelmente. Exemplos: uma pessoa está concentrada e assusta-se com um ruído e fica banhada em suor e medo, ou os pensamentos de alguém estão continuamente fixados num determinado acontecimento, ou ainda, alguém que já não consegue se lembrar de determinados acontecimentos importantes. Quero referir-me como exemplos para as causas de um trauma psíquico por acidentes graves (de automóvel, queda de avião, etc.), tortura, situações de sequestro, violência sexual, etc. Na investigação do trauma costuma-se distinguir dois tipos de situações traumáticas:

– Trauma de tipo 1: acontecimentos que surgem súbita e inesperadamente.

– Trauma de tipo 2: situações longas, de exigência excessiva e em que existe sentimento de impotência.

No trauma existe uma diferença fundamental entre, por um lado, a exposição a uma ameaça e a perturbação emocional daí derivada e, por outro, as possibilidades de ação da pessoa para se proteger. O observador do trauma de outras pessoas pode também ficar psiquicamente traumatizado. A partir do trabalho prático com os pacientes, torna-se cada vez mais claro para mim que, no fundo, não há doenças psíquicas graves sem um trauma subjacente, ou seja, os traumas do inconsciente funcionam como um ímã que atrai as possibilidades de doenças psíquicas graves.

Sendo assim, de uma forma sistemática os traumas das memórias inconscientes são a base para todo e qualquer tipo de problema psíquico se desenvolver. Sempre analiso quatro tipos de traumas:

– Traumas existenciais: pode ocorrer durante sua fecundação, gestação, tentativa de aborto, rejeição e fatores traumáticos até os 7 anos;

– Traumas de perda: quando uma pessoa sofre a perda de um vínculo psíquico muito importante para ela (por exemplo: morte da mãe de uma criança, marido, esposa ou rompimento de um vínculo amoroso);

– Traumas de vinculação: a necessidade de vínculo de uma pessoa é traumatizada, pelo que não pode mais entregar-se emocionalmente a vínculos humanos (por exemplo: abuso da filha pelo próprio pai);

– Traumas de vinculação sistêmica: estes são os mais graves. Nestes casos, todo um sistema de vinculação (por exemplo: uma família) é traumatizado por determinados

acontecimentos (incesto ou assassinato de um familiar).

Podemos, de uma forma geral, relacionar os sintomas de doenças psíquicas graves com as diferentes formas de traumas: – Nos traumas existenciais encontramos, muitas vezes, medos intensos e síndrome de pânico, ansiedade, vícios de drogas e álcool.

– Nos traumas de perda encontramos, na maior parte das vezes, depressões graves.

– Nos traumas de vinculação constatamos comportamentos sintomáticos que são diagnosticados na Psicanálise Clínica como Distúrbios de Borderline da personalidade, “auto mutilação”.

– Os traumas de vinculação sistêmica (suicídios, assassinatos) relacionam-se, conforme a minha experiência, com estados de perturbações psicóticas. A superação de um trauma através de sintomas tem duas tarefas a cumprir:

1º) tem que se estabelecer uma distância em relação à vivência traumática e 2º) encontrar uma regra de sobrevivência para a pessoa não voltar a entrar numa situação traumática.

A resposta automática de emergência, na sobrevivência do trauma, dissocia as percepções, os sentimentos e os pensamentos e reduz assim, a energia do trauma. A dissociação da memória do trauma permite que a percepção consciente e o pensamento fiquem livres para assegurar a sobrevivência. As emoções provocadas pelo trauma são afastadas da memória inconsciente, mas mesmo estando separadas das ligações nervosas que regulam a consciência de vigília elas ficam armazenadas nas camadas inferiores do cérebro, sobretudo nas células que estão em contato neural e hormonal com as regiões do sistema límbico e do cerebelo. Assim, o traço de memória do trauma continua a existir no corpo todo ou em partes dele e funciona como uma bomba-relógio com o seu tic-tac próprio.

No entanto, numa situação similar à geradora do trauma original, se a “camada de defesa” se tornar demasiadamente fina e não conseguir evitar que o trauma penetre nas estruturas cerebrais mais desenvolvidas do neocórtex e na memória inconsciente, existe o perigo de que a vivência da situação atual se misture com a vivência traumática antiga (vivenciadas pelos seus ancestrais) e os sentimentos saiam totalmente do controle novamente. Com o método ASMI, é feita a ressignificação das memórias e, a partir de então, é impossível o retorno traumático das memórias. Um trauma acontece sempre num contexto existencial, fundamentalmente no útero materno e até os sete anos. Estes são os fatores determinantes dos desencadeamentos das memórias genéticas, através de traumas sistêmicos.

Na maioria das vezes, existe um número maior de vítimas, pessoas que, embora feridas menos profundamente em termos psíquicos, sofrem muitas vezes de forma grave as consequências de um trauma de perda (por exemplo: uma família que tem um membro assassinado brutalmente). Sistemas de menor vinculação (famílias, por exemplo) podem ser tão traumatizados como os sistemas maiores (etnias, religiões, preconceitos). A noção limitada e reduzida existente sobre o trauma e as pessoas diretamente afetadas por ele (como acontece no distúrbio do Stress Pós-Traumático), é insuficiente tanto para a compreensão dos acontecimentos traumáticos como para a sua transformação duradoura.

A traumatização psicossocial implica feridas que não podem ser enfrentadas unicamente através da psicoterapia tradicional. As ofertas de apoio têm que incluir sempre uma iniciativa dirigida para as causas das feridas. Em muitos casos, conflitos se desencadearam de várias gerações passadas. De fato, se as condições geradoras dos

traumas não são consideradas, o risco de qualquer trabalho psicoterapêutico não ter efeito é grande. O conceito individualizado da memória traumatizante também não ajuda a perceber a sintomatologia psicótica. Neste caso, são de excluir as situações traumáticas em que uma pessoa que se tornou psicótica, pode ela própria ser ferida gravemente a nível psíquico. É por isso que, até hoje, todas as tentativas da Psiquiatria de explicar e tratar adequadamente as psicoses têm dado pouco ou nenhum resultado.

Depois de muitas tentativas teóricas infrutíferas na solução deste enigma, para mim abriu-se um grande campo de entendimento: as Abordagens Sistêmicas das Memórias Inconscientes, que me levaram a entender as psicoses e indicaram-me uma pista que se tem revelado cada vez mais válida para o sucesso do tratamento. Nos casos de vinculações psíquicas, as memórias são passadas de geração em geração.

Nomeadamente, as memórias traumáticas dissociadas são entregues aos descendentes de forma inconsciente, como uma herança muda. Estas memórias perduram por dezenas de gerações e têm uma influência significativa na psique individual de cada pessoa, mesmo se ela nascer só dezenas de anos depois do acontecimento traumático ter sucedido. Como eu sempre digo, as memórias genéticas de repetição funcionam como uma dinamite adormecida, sendo as brigas nos lares e as decepções da vida existencial o fósforo causador das explosões.

Vínculo psíquico através de gerações

Através do método ASMI, torna-se visível como os seres humanos estão ligados em sistemas de vinculação e emocionalmente dependentes uns dos outros de muitas formas. Mostra o caminho que, sobretudo, os sentimentos e pensamentos doentios se instalam e tomam o interior da pessoa numa espécie de um sistema circular repetitivo plurigeracional, ou seja, alcançando várias e várias gerações.

Vou explicar melhor os conceitos de relação e de vínculo! Há relações em que não existem vínculos emocionais verdadeiros (por exemplo, quando um homem e uma mulher vivem juntos sem terem sentimentos de amor um pelo outro, assim não criam nenhuma espécie de vinculo). Em outros casos há vínculos, apesar de não existir nenhuma relação real (por exemplo, quando alguém tem uma forte ligação de sentimentos de amor a um parceiro anterior, talvez até já falecido, como no caso de um ex-namorado que a situação ficou mal resolvida!), e nestes casos os vínculos são fortes e em parte indissolúveis. Sendo assim, é preciso honrar o relacionamento anterior para que se dissolva. Muitos casos de fracassos amorosos da geração atual têm nestes vínculos do passado as suas raízes.

Outros vínculos são criados, sobretudo, pela descendência biológica (nomeadamente, os vínculos mãe-filho, pai-filho e entre irmãos) e pela sexualidade (vínculo entre parceiros). Os vínculos são caracterizados por sentimentos fortes como o amor, o medo, a raiva, o orgulho, a vergonha ou a culpa. Os vínculos estabelecem-se sem um esforço consciente das pessoas em questão, e muitos casos de psicoses de violência têm suas raízes nos vínculos de ódio pelo agressor, e uma vez estabelecidos, oferecem resistência à sua dissolução. Por isso que ASMI torna-se muito eficiente. A possível perda de um vínculo provoca medo. Os vínculos estão protegidos contra a sua dissolução arbitrária pelo fato de a separação criar uma dor forte, mostrando uma grande desordem nas ordens do amor. As alterações das ordens criam, inconscientemente, a dimensão da dor provocada pelo soltar do vínculo, e é um sinal da força desse mesmo vínculo.

É através dos vínculos que se estabelecem as estruturas básicas transgeracionais da convivência humana, podendo causar um grande mal a dezenas e dezenas de gerações. O método ASMI organiza estes vínculos, desalienando as pessoas dos vínculos maléficos.

Por outro lado, sem vínculos não haveria amor entre grupos familiares, não haveria laços de amizades e, provavelmente, não haveria o que chamamos fraternidade. Os vínculos se estendem muito além dos humanos, e podemos constatar também em animais, como já dizia o provérbio popular “as aves da mesma plumagem voam juntas”. Também os animais selvagens desenvolvem formas de comportamento e de vida baseados em vínculos. Para realçar a qualidade específica da ligação entre seres humanos, escolhi a frase “Vínculo da Alma”. O conceito de alma tem grande importância na história cultural e filosófica humana. A alma, em todas as religiões e filosofias, tem a função de colocar questões sobre a origem da vida, da existência específica do ser humano no mundo e daquilo que resta de uma pessoa depois da sua morte biológica. Defino a alma como aquela força que liga o que pertence a um grupo de seres e o delimita de outro. Uma alma comum inclui, assim, conjuntos de seres humanos e delimita-os, cria o sentimento de pertencer. Cada pessoa participa na alma comum do seu grupo com os seus sentimentos. Podemos chamar também de grande alma grupal ou consciência sistêmica. Assim, a alma é parte de cada elemento do grupo, mas também é um fenômeno sobre-individual.

O relacionamento de cada elemento com o respectivo grupo influencia os seus membros na sua percepção – sentir, pensar, imaginar e lembrar. A alma significa, neste sentido, também partilhar sentimentos. Sobretudo as crianças absorvem na sua própria psique os sentimentos dos pais. O sentimento e a necessidade de pertencer são, por seu lado, a base da consciência. A consciência orienta comportamentos elementares na base dos sentimentos de culpa e não-culpa. Favorece assim a troca entre membros de um conjunto de pessoas, regula o dar e o receber e também o respeito por certas ordens básicas em grupos. A visão sistêmica é uma grande descoberta que pode transformar o mundo das pessoas com problemas de variadas ordens. A ASMI mostra claramente a relação entre vínculo e consciência, abrindo grandes campos de possibilidades, para assim a pessoa chegar à compreensão profunda de culpa e não-culpa.

Pela relação no grupo, estabelece-se uma compreensão de bem e de mal, de certo e de errado. A verdade e a moral são – nas suas formas originais daquele grupo, tornando uma diretriz das decisões relacionadas com o tal – “verdades relativas”. O que num grupo é considerado bom e correto pode ser considerado mal e errado no outro. Devido à necessidade de pertencer ao grupo, os seres humanos pensam naturalmente em termos ideológicos e consideram-se, em geral, melhores que os elementos de outro grupo. Isso é claramente visto nos grupos religiosos, um se considerando melhor que o outro.

Quem faz parte de um grupo tem direito a uma proteção especial no seu meio grupal, não pode ser excluído. Por causa da importância desse vínculo na sua vida e na sua sobrevivência, a exclusão de uma pessoa pelo seu grupo tem um efeito traumático. Como os vínculos não se dissolvem automaticamente pela morte e como todos nós tememos a exclusão do grupo, continuamos a dar aos mortos, por muito tempo, um lugar na alma do grupo. Em quase todas as culturas as pessoas passam muitos anos vinculados com os seus mortos, até mesmo adotando seus destinos de sofrimento.

As causas psíquicas das confusões psicóticas

Traumas tabus

Se, conforme a minha visão sistêmica, os sintomas têm uma função de proteção, se são consequências de uma memória, os traumas psíquicos continuam ativos num sistema de vinculação psíquica durante gerações. Que sentidos terão então as psicoses? Uma resposta básica poderia ser que, na psicose, um acontecimento traumático do passado vem à luz em forma de memória através da glândula pineal, e chega a determinado elemento da família por transmissão de experiências traumáticas, passadas de pais para filhos.

Mas, para tais memórias desencadearem, obrigatoriamente, o então membro da família terá que ter sofrido um trauma a nível de ventre materno ou, até os sete anos, servindo estes traumas como fator de atração, atraindo do campo morfogenético as dinâmicas semelhantes vivenciadas pelos ancestrais. O que há, afinal, de tão especial neste acontecimento traumático do passado que é capaz de provocar confusões emocionais e fracassos diversos nas gerações atuais? A sua especificidade consiste no fato de estar ligado pelo campo morfogenético a um grau tão elevado de eventos semelhantes, fazendo jus à lei da atração por semelhança, fracassos financeiros, amorosos, medos, confusões de pensamentos e uma grande linhagem de sentimentos extremos de vergonha e culpa que, até à atualidade, não pôde ser comunicado abertamente à família. Assim tornou-se tabu e foi mantido em segredo por aqueles que sabiam, e o saber que algo de muito grave aconteceu é uma forma errônea de agir.

Achando que algo que aconteceu no passado poderá abalar os alicerces emocionais, ameaçando a coesão de uma entidade familiar, ficou, no entanto, guardado, dissociado (afastado) da consciência. Assim, as gerações vindouras sofrerão as consequências destes fenômenos escondidos, não tendo como se defender no momento que o gigante despertar. Se soubessem do caso, a defesa seria mais fácil, pois quando se conhece o adversário é mais fácil nocauteá-lo. Como já referi anteriormente, os traumas causadores de funestas consequências têm a sua origem em casos graves, como por exemplo: incestos, suicídios, abortos, mortes prematuras, etc.

As maiores tragédias familiares acontecem quando o incesto tem por consequência a gravidez da filha, ou quando um familiar mata outro (por exemplo, o homem mata a sua mulher para poder casar com outra). A impulsividade e a paixão sexual que ultrapassam todos os limites e tabus morais, e a culpa pela morte de familiares, são os fatos que traumatizam um sistema familiar inteiro e significam a sua ruína. O sistema só pode continuar a despejar suas dores em seus membros se o acontecimento traumático for ignorado (não tratando adequadamente), tornando-se um segredo familiar. Estes segredos desencadeiam nas gerações vindouras em forma de memórias incompreensíveis, podendo levar os familiares ao suicídio, como também ao homossexualismo, esquizofrenia, crises existenciais, dependências químicas etc.

Temos milhares de casos tratados em que as psicoses tinham suas raízes em segredos familiares. Através do método A.S.M.I, fica claro como um segredo é transmitido de geração em geração por variadas imagens e como ele é guardado em muitos esconderijos da (não) comunicação familiar. Encontramos também muitos indícios de como os “segredos obscuros” nascem, e como eles levam a múltiplas formas de confusões psíquicas em familiares que ficam inconscientemente sob sua influência, levando-os a fracassos diversos.

Numa família, a relação para com a verdade é fundamentalmente perturbada pelos segredos. Com a A.S.M.I., não tenho nenhuma dúvida da sequência plurigeracional na formação de confusões psicóticas. Enquanto a geração em que o trauma aconteceu o recalca e cala conscientemente, é como se cobrisse com cinzas um vulcão aceso, e no

passar das gerações ele é ativado inconscientemente, entrando em erupção e fazendo vítima quem estiver por perto.

As gerações que são vitimadas sentem intuitivamente que existe algo de estranho, o qual eles não conseguem compreender. Então começam as perguntas: porque de tanto fracasso, sofrimento e dor? Sentem algo no ar, algo pelo qual estão sendo vítimas, mas não tem a quem perguntar. A próxima geração vindoura nota na alma dos seus pais estranhas manchas “cegas” e fica muito insegura, aumentando o nível de frustração. Através da vinculação a nível de alma, os acontecimentos traumáticos dissociados são copiados de um grande disco para outro, sem que os arquivos possam ser abertos conscientemente. Geralmente estes arquivos só serão abertos de maneira não controlada e por vivências emocionais de perturbações intensas, junto de uma pessoa nascida mais tarde, como por exemplo, através de uma gravidez, um acidente, uma morte súbita ou também pelo consumo de drogas. É por isso que as psicoses surgem súbita e inesperadamente.

É importante, no entanto, distinguir esse processo sistêmico plurigeracional daqueles estados de confusão provocados por: – Influência direta – por exemplo, intoxicação por medicamentos. A pessoa estava apenas estressada, o psiquiatra lhe enche de ansiolíticos, tornando-se assim um verdadeiro psicótico pela dependência de psicotrópicos, intoxicações por drogas, traumatismos cranianos, processos de degeneração cerebral. – Experiências traumáticas da própria pessoa – como, por exemplo, pessoas que foram abusadas sexualmente de forma grave, numa idade precoce, sofrem de memórias súbitas de imagens da sua violação (trauma-flashback) e de medos de perseguição. Essas pessoas têm geralmente uma personalidade múltipla, já que a dissociação da personalidade é muitas vezes a única saída para sobreviverem às feridas psíquicas infligidas, causando uma espécie de fuga da realidade, como em muitos casos de transferências das decepções para os sentimentos religiosos, como uma verdadeira psicose comportamental.

Para terminar, cito o exemplo de um trabalho com um homem jovem que sofria de alucinações há oito anos – em parte paranóicas e em parte maníacas. Depois de ter consumido drogas em conjunto com amigos, teve subitamente sentimentos de medo, deixou de ser capaz de tomar decisões por si próprio e teve que interromper os seus estudos. Passava o tempo todo trancado na casa dos pais e tinha constantemente ataques maníacos (surtos psicóticos), onde quebrava tudo dentro de casa. Um dia, pegou o carro dos pais e só foi parado pela polícia depois de uma perseguição por toda a cidade. Todos os métodos anteriores de tratamento e de cura psiquiátrica, psicoterapêuticos ou alternativos não conseguiram alterar significativamente o seu estado. A anamnese familiar revelou que, da parte da mãe, havia um segredo relacionado com o avô dela. Fragmentos desse segredo em forma de memórias desencadearam no filho: um homem que cometeu suicídio por enforcamento.

O que aconteceu de verdadeiro continuava obscuro. Da parte do pai também havia um segredo relacionado com o avô. Aqui os fragmentos eram o bisavô do paciente, assassinado por questões fundiárias. Como se soube depois, através da tia-avó do paciente, os familiares ficaram proibidos de falar sobre estes acontecimentos.

Trabalhei as memórias sistêmicas com este paciente por mais de trinta sessões e surgiram os sentimentos traumáticos presos e escondidos das duas linhas de origem. Os sentimentos de medo e pânico em relação à descoberta dos acontecimentos traumáticos, os ataques de raiva e impotência sobre o sucedido, os sentimentos de amor intenso, as dores do luto não vivido, a necessidade de vingança e a procura de justiça apareceram em diferentes abordagens, tanto nas sessões do paciente como dos pais. Com o tempo,

as energias traumáticas dissolveram-se tanto nos pais como no paciente, dando lugar a uma grande paz na consciência familiar e na alma de cada membro.

O trabalho da Psicanálise Sistêmica tem um lugar central neste tipo de terapia das psicoses. Pelo que eu conheço, só a A.S.M.I. torna claro como os acontecimentos traumáticos são transmitidos de geração em geração, bem como as ressignificações destas memórias funestas. Para verdadeiramente se saber trabalhar com confusões psicóticas, é preciso, no entanto:

– Ter uma boa compreensão dos acontecimentos possivelmente subjacentes a uma psicose;

– Capacidade de ouvir e questionar o inconsciente;

– Ter conhecimento profundo do mundo espiritual (de preferência ter recebido unção sacerdotal terapêutica);

– Interagir apropriadamente os variados níveis de energias que surgem numa abordagem sistêmica;

– Uma atitude muito reservada na determinação definitiva e na interpretação de acontecimentos do passado;

– Considerar que uma família só pode fazer este processo de confrontação com a realidade e a verdade de forma gradual;

– Nomear as responsabilidades, mas ao mesmo tempo evitar o juízo moral;

– Uma capacidade de diagnóstico intuitivo diferencial, ou seja, saber diferenciar as memórias de traumas passados e atuais.

Acredito que ficou claro que o trabalho com pacientes com confusão psicótica e viciações não pode ser um ato único de uma A.S.M.I., mas exige muitos outros métodos associados, como paciência e persistência para acompanhar uma pessoa e a sua família através de um caminho muitas vezes doloroso e de confrontação com as longas sombras de vivências passadas.

 

Dr. Celso Scheffer 

Fonte ipth

*imagem Pixabel

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